A alquimia do reuso: Emily Moreira e a moda que nasce da ancestralidade

De sobras de tecidos a manifestos de identidade, a designer carioca ressignifica o conceito de upcycling com uma herança que vai muito além das passarelas.

No cenário efervescente da moda autoral do Rio de Janeiro, uma potente manifestação artística e cultural tem provocado reflexões necessárias sobre o que vestimos e, principalmente, sobre o que descartamos. O upcycling — técnica de transformar resíduos em peças de alto valor — surge aqui não apenas como tendência sustentável, mas como um mecanismo de sobrevivência e herança ancestral.

Quem dá voz e forma a esse movimento é a designer de moda Emily Moreira. Com uma trajetória que une rigor técnico e sensibilidade social, ela é enfática: “Não fazemos apenas roupas; costuramos histórias”.

Memória nas Mãos: O Toque como Guia

Diferente do processo industrial tradicional, que muitas vezes nasce da frieza de um croqui, as criações de Emily brotam do toque. É um saber corporal que começou cedo, aos seis anos, costurando para bonecas. Aos 14, seus primeiros vestidos profissionais já ganhavam vida a partir de sobras têxteis.

“Trabalhar com as mãos é memória corporal. Meu trabalho não nasce do vazio; ele nasce daquilo que foi transformado, reaproveitado e ressignificado”, explica a designer.

Essa filosofia está profundamente ancorada nas matrizes banto. Ao investigar suas raízes na África Centro-Ocidental (Angola e Congo), Emily compreendeu que o reaproveitamento é um gesto de inteligência e afirmação de dignidade que atravessa gerações em sua família. Para ela, a estética é vibração: uma peça só cumpre seu papel quando o corpo responde e o movimento flui.

Resistência e Coletividade: A Batalha da Foice

A conexão de Emily com o território ultrapassa as paredes do ateliê. Ativa no Leste Fluminense, ela integra a Batalha da Foice, coletivo cultural de Itaboraí que ocupa praças com rimas e resistência. Ali, sua moda se funde ao hip hop, reforçando que o vestir é uma armadura de identidade e uma ferramenta de transformação social.

Em um mundo que produz descarte em massa, Emily Moreira convida o público a desacelerar e olhar para o “velho” com reverência. Para a designer, criar a partir do que sobra é, acima de tudo, um ato político.


Trajetória: Do Leste Fluminense para as Passarelas Nacionais

Natural de Itaboraí, Emily Moreira construiu uma identidade criativa sólida, unindo a prática do mercado à excelência acadêmica:

  • Formação: Bacharela em Design de Moda (UFG) e especialista em Moda, Arte e Cultura (UFJF).
  • Expertise: Atua como estilista, modelista e designer de superfície, acumulando mais de quatro anos de experiência técnica.
  • Destaques na Carreira:
    • Participação na 46ª Casa de Criadores (Coleção Den(in) em parceria com a Thear).
    • Semifinalista do 2º Concurso Casa de Criadores + Sou de Algodão.
    • Colaboração na coleção “Elementos” para a marca Thear, apresentada na SPFW N57 (São Paulo Fashion Week), onde explorou a ancestralidade e o bioma do Cerrado.

Com um portfólio que transita entre grandes eventos nacionais e a pulsação das ruas, Emily Moreira reafirma o compromisso com uma moda que une técnica, sustentabilidade e, acima de tudo, alma.

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